23
maio

Milagres e mais milagres (parte III) – 50 anos da reunificação de Yerushalaim

Há três anos, em Yom Yerushalaim, eu participei de um passeio em Jerusalém com um rabino que na época da guerra era um dos paraquedistas que liberaram a cidade velha de Jerusalém. Fizemos o percurso de sua tropa com descrições do ocorrido em cada lugar.

Poucos prestam atenção nisso, mas apesar da Guerra dos Seis Dias ter sido a guerra com melhores resultados na história de Israel, proporcionalmente para os paraquedistas foi uma guerra com custos bem altos. Conseguiram conquistar todos os marcos predeterminados para eles, mas com muitíssimas perdas, foram 97 mortos e mais de uma centena de feridos nas batalhas em Jerusalém. Esta foi a divisão militar com maior baixa em todas as batalhas durante esta guerra.

Tudo começou porque Israel ainda não acreditava que as batalhas no sul, contra o Egito teriam tanto sucesso. E por outro lado, ainda se acreditava que a vitória da aeronáutica Israelense contra a egípcia no primeiro dia da guerra, faria com que a Jordânia ficasse com medo de entrar na guerra. Estes dois pontos levaram Israel a preparar a divisão 55 dos paraquedistas para a guerra no deserto do Sinai e não para batalhas em Jerusalém. O Egito, porém, já havia previamente se preocupado que a Jordânia entrasse na guerra a qualquer custo, e por isso, impuseram um comandante egípcio ao exército jordaniano, tornando este, um exército sob ordens diretas do Egito. Quando os egípcios tiveram uma perda tão grande às forças israelenses no primeiro dia, sua solução foi envolver o mais rápido possível o exército jordaniano, prevendo assim que Israel seria obrigado a dividir sua força tendo que guerrear em duas frentes simultaneamente.

E foi o que aconteceu, o exército jordaniano conquistou postos neutros em Jerusalém (postos que deveriam estar sob controle de forças internacionais), e Israel começou um contra-ataque a tais pontos com a divisão de infantaria de Jerusalém e acabou designando a divisão 55 dos paraquedistas e uma tropa de tanques da divisão Harel para um reforço em Jerusalém sem nenhum preparo anterior.

Segundo o Rabino que guiava o passeio, quando eles entraram no ônibus em direção a Jerusalém, nem sabiam para onde estavam indo, e as instruções só foram dadas quando eles chegaram à fronteira com a Jordânia (que na época era no meio da cidade) – recebendo assim uma preparação de 10 minutos.

Parte das perdas nesta batalha ocorreram porque não se tinha nem o mapeamento das ruas por onde estavam passando e acabaram se aproximando demais das muralhas da cidade velha, caindo assim em uma emboscada dos Jordanianos. Mas só por causa deste erro, eles conseguiram conquistar um posto ao lado das muralhas (posto de Rockefeller), que lhes daria uma boa cobertura em segurança antes de avançar adiante.

Durante a noite, sem aviso prévio, apareceu uma força de 11 soldados da tropa de elite dos paraquedistas que se autodenominaram à conquista da cidade velha de Jerusalém. Eles ficaram sabendo que havia uma divisão que estava cobrindo o lado norte da cidade, e uma das tropas estava junto às muralhas – portanto decidiram se juntar a esta tropa. Na mesma noite, o Rabino Goren, rabino do exército resolveu se juntar a esta tropa pelo mesmo motivo.

Enquanto isso acontecia com esta tropa, a divisão de tanques havia conquistado todos os postos militares jordanianos ao norte de Jerusalém (fora da cidade), criando assim, uma barreira e isolando as tropas jordanianas de Jerusalém das tropas de Rammallah ao norte. Em paralelo, outras tropas da divisão 55 dos paraquedistas conquistavam os postos jordanianos na parte norte, dentro de Jerusalém.

Na madrugada do segundo dia de guerra, a cidade velha de Jerusalém estava cercada quase por completo, ao sul pelas forças de infantaria de Jerusalém, a oeste e ao norte pelas forças de tanquistas e paraquedistas, ao leste já haviam chegado e dado proteção à Universidade Hebraica no Monte Scopus (Har Hatzofim), faltava somente conquistar a fortaleza de Augusta Victoria para fechar totalmente o cerco à cidade velha. O governo de Israel ainda não havia dado a ordem de conquista da cidade, parte do governo ainda era contra, portanto a única ação militar permitida seria conquistar o forte de Augusta Victoria e fechar o cerco a Jerusalém.

A tropa de elite que se juntou a tropa de paraquedistas no forte de Rockfeller propôs a ação. Eles deveriam rodear as muralhas da cidade velha até o ponto noroeste e se distanciar em direção a leste sem serem identificados pela força jordaniana que guardava a cidade velha. Esta era considerada na época a melhor tropa para a tarefa, já que haviam 2 soldados que conheciam muito bem as ruas de Jerusalém e eles eram os melhores soldados do exército em direcionamento de tropas urbanas. Porém, no caminho, eles erraram e se viram de frente às muralhas leste da cidade velha bem próximos aos postos de guarda da cidade. Encurralados, sem chance de escapar, acabaram sendo mortos, todos os 11 soldados (fato que só foi descoberto na manhã seguinte).

Na manhã seguinte, ainda no segundo dia da guerra, a comissão de segurança do governo israelense decidiu conquistar a cidade velha de Jerusalém e deu ordem a todas as tropas que cercavam a cidade para atacar. Tanquistas e infantaria partiram pelo sul e oeste, e os paraquedistas pelo norte. Como os paraquedistas estavam muito mais perto, eles foram os primeiros a passar as muralhas, acompanhados do Rabino Goren com seu shofar e rolos da Torá nos braços. De uma forma milagrosa, quase não encontraram resistência pelos guardas jordanianos nos postos das muralhas: 3 pequenos focos de resistência foram o que nossos soldados tiveram que passar, sendo um único na parte externa da cidade e mais dois dentro… Na hora, não se entendeu bem o que estava acontecendo, mas com o tempo se deram conta de que sobraram umas poucas dezenas de soldados jordanianos lá, e nenhum oficial presente…A divisão jordaniana que havia lutado na noite anterior de dentro da cidade velha havia recuado e abandonado a cidade em algum momento entre a madrugada e o amanhecer do dia 6 de maio.

Jerusalém foi conquistada, o Monte do Templo voltou depois de 2.000 anos a nossas mãos, o Kotel (Muro das Lamentações) foi libertado!!! A bandeira de Israel foi erguida sobre o Kotel pelo comandante da divisão dos paraquedistas, o som do shofar foi emitido pelo Rabino Chefe das Forças de Defesa de Israel, Jerusalém fora reunificada!!! Do rádio se ouviu o lendário som de “o Monte do Templo está em nossas mãos”, posteriormente uma nova estrofe foi acrescentada à música Jerusalém de Ouro pela poeta e cantora Naomi Shemer, o Salmo 122 foi lido com uma nova interpretação, o versículo dizia há milênios “Jerusalém construída, como uma cidade que foi reunificada”…

Foram tantas mudanças em um só momento que acabaram ofuscando detalhes de um grande milagre… Caso algum destes detalhes não tivesse acontecido, talvez não tivéssemos hoje Jerusalém em nossas mãos, ou talvez tivéssemos perdido toda esta batalha, o que influenciaria em todo o resultado da Guerra dos Seis Dias.

Caso o Egito não tivesse imposto um comandante ao exército jordaniano, muito provavelmente a Jordânia não entraria na guerra. Caso as tropas dos paraquedistas estivessem muito bem preparadas para esta batalha, teriam conquistado os postos jordanianos quase sem a percepção do comandante da divisão jordaniana, que estava na cidade velha de Jerusalém (ele não notaria que está sendo cercado). Caso a tropa de elite não tivesse errado o caminho e sido descoberta na frete da parte leste da cidade, teríamos cercado hermeticamente a cidade e não teríamos dado a opção de toda a divisão jordaniana recuar da cidade velha – seria uma batalha sangrenta, dentro de uma cidade de estreitas vielas que nossos soldados não conheciam… As chances eram muito grandes de uma derrota onde centenas ou até milhares de soldados seriam mortos e feridos, a duração desta batalha seria de semanas ou até meses. O resultado seria completamente diferente!!

Voltando ao comandante egípcio: ele não teria dado a permissão de recuo da cidade velha de Jerusalém caso entendesse plenamente o significado estratégico e moral do lugar. Mas ele não conhecia direito a área, nem geograficamente e nem culturalmente, ele nunca tinha visitado Jerusalém! Sem a conquista de Jerusalém, Beith Lechem (Belém) e Hevron não teriam se rendido sem resistência, as tropas de paraquedistas e tanquistas não estariam livres para participar e reforçar as batalhas com a Síria no fronte norte dois dias depois!!! Toda a Guerra tomaria outro rumo! Um rumo completamente indefinido.

Milagres e mais milagres!!!

Yom Yerushalaim, o dia de reunificação da cidade de Jerusalém – que se manteve dividida (metade de Israel, metade da Jordânia) desde 1948 até 1967. Completa este ano o seu jubileu – 50 anos de liberdade!!!
Vamos comemorar e agradecer a D`us pela bondade que fez conosco e com a nossa geração.

Chag Sameach!!!

6 Comentários

  1. Esther D. Amarante

    Dani, que maravilha! Fiquei muito emocionada com esse artigo! Aprendi, novamente, com você, como sempre. Só depois de terminar a leitura é que descobri que foi você que escreveu! Uau! Adoro ler o que você escreve e a sua visão de Israel e nosso povo. Obrigada!

  2. Alexandre

    Como assim reunificou, se os árabes ainda querem a metade e a mesquita deles ainda está lá?
    O jeito é dividir. O Trump já voltou a tra´s e não vai transferir de imediato a embaixada. Enfim, demagogia velha, como sempre. Tudo como antes no castelo de Abranches.

    1. Bnei Darom

      Caro Alexandre.

      Em primeiro lugar, obrigado pelo cometário, assim podemos esclarecer e detalhar pontos que podem não estar suficiente claros.

      Em teu comentário você criticou o uso do termo reunificação de Jerusalém, e com base nisso você me acusou de demagogia.

      Então vou responder aos dois pontos:
      1. A reunificação de Jerusalém em mãos judaicas não dependem da intensão dos árabes, dos palestinos, da ONU ou dos EUA e nem dos dirigentes de Israel (por incrivel que pareça). Não é algo subjetivo… Vou explicar.
      Se dependesse dos árabes, Israel não existiria. Jerusalém tampouco estaria dividida desde o começo! Seria tudo deles! E por isso alguém em sã conciência argumenta que Israel não existe?!?
      A ONU argumenta que não existe nenhuma ligação histórica entre Jerusalém e o povo judeu e Israel. Isso apaga a história real? Isso apaga as cerca de 700 vezes que Jerusalém está escrita no Tanach? Isso destrói as milhares de provas arqueológicas encontradas que ligam a história com o povo Judeu, Jerusalém e Israel?!?
      Da mesma forma, o fato de embaixadas de países não estarem localizadas em Jerusalém não foram em momento algum um empecílio para a definição de Jerusalém como a capital de Israel. Obviamente seria muito bom ter o reconhecimento dos outros, assim como o parlamento da República Checa acabou de fazer esta semana. Mas o fato de Jerusalém ser a capital de Israel é incontestavel, porque fatos não são contestáveis. O parlamento e o governo de Israel ficam na cidade, os ministérios e o sistema judiciário central israelense lá estão localizados (parte deles nos bairros orientais).
      Fora isso, a autonomia política, administrativa e de segurança de Jerusalém são israelenses. A polícia israelense é a responsável pela segurança em todas as partes de Jerusalém (não o exército ou a polícia de fronteiras – que já seria o suficiente para dizer que está em poder de Israel). A prefeitura de Jerusalém é uma só e é responsavel por todos os serviços em todos os bairros de Jerusalém, orientais e ocidentais, cidade velha e nova, bairros árabes e judeus…
      Além disso, a lei de Israel anexou oficialmente Jerusalém e todos os seu bairros e vilarejos árabes em volta a Israel. Mas mesmo sem isso, Israel continuaria soberana no território de Jerusalém sem sombra de dúvidas.
      Com relação ao argumento de que há uma mesquita no Monte do Templo, eu nem deveria contra-argumentar, mas não gosto de deixar lacunas. O que você sugere? Destruir todas as mesquitas e igrejas de Jerusalém?!? Isso é uma ação adequada a grupos como o Estado Islâmico, não o Estado judeu!!!
      Porém segundo a tua análise embasada somente em “fatos” (não em opinião, jamais!) Jerusalém continua dividida…

      2. A mensagem central de meu artigo, é que eu chamo de milagre e intervensão Divina uma sequência de acontecimentos durante a Guerra dos Seis Dias que cada um deles em separado é quase improvavel, porém possivel de acontecer. Agora, a junção de todos eles num espaço de tempo tão curto, torna tudo quase impossivel. Neste ponto eu afirmo a existência da intervensão Divina e mudanças nas regras naturais. Isso olhando o ‘micro’, ou seja, eu fiz uma descrição a partir de batalhas específicas dentro da guerra (aquelas que trouxeram a reunificação de Jerusalém). Se olharmos o ‘macro’, a guerra como um todo, eu fico estupefato! Semanas antes da guerra o Rabinato das Forças de Defesa de Israel começaram a preparar 30.000 covas para enterrar todos os soldados mortos numa iminente guerra, mas no final, em 6 dias(!), Israel acabou com a aviação bélica egípcia, jordaniana, síria e iraquiana, conquistou toda a península do Sinai, toda a área da Judéia e Samária, e as colinas do Golan. Contra todas as previsões… Isso, sob minha definição, é talvez o maior milagre da era moderna.
      Porém, para você, que não gostou do termo “reunificação” de Jerusalém, toda a argumentação do artigo é demagogia.
      Eu sugiro que você e os outros leitores julguem por si mesmos quem está fazendo uso de demagogia para passar a sua mensagem…

      Agradeço mais uma vez a oportunidade que você me deu de esclarecimento, e peço desculpas caso tenha interpretado de forma errada tua intensão. Eu não te conheço, teria prazer em te conhecer melhor (te convido a entrar em contato seja aqui ou no facebook), portanto não julgo por causa de 3 linhas que você tenha escrito. Eu somente respondi à argumentação escrita nas poucas linhas. Se pareceu pessoal peço desculpas mais uma vez ou se te ofendi eu até pensaria em uma nova formulação para minha resposta, não foi esta a minha intensão.

      Shalom
      Daniel Chanchinski

  3. Alexandre

    Daniel.
    Você não é demagogo coisa nenhuma. Você é apenas um rapaz bem intencionado, boa pessoa, que ama Israel e se dedica a uma causa.
    Eu não te chamei de demagogo!
    Na internet a gente escreve muitas bobagens sem pensar – isto aqui não é um ambiente acadêmico.

    Você deve saber que, quando conquistaram Jerusalem na Guerra dos Seis dias, teve sim um rabino que sugeriu destruir aquela mesquita (cujo “mufit”, você deve saber, era um anti-semita). Agora, o tempo passou e não dá mais. Se tivesse de ter sido feito, deveria ter sido feito no calor dos acontecimentos; hoje, seria um estopim para uma terceira guerra mundial.

    Só existe um jeito de reunificar Irushalaim: estimular a aliah, trazer mais e mais judeus para Eretz, contruir mais e mais… Crescer! Mas, isso o governo do Bibi não está conseguindo: esses políticos israelenses é que são demagogos, eles sim estão preocupados só em enriquecer.
    Por que Israel não constrói apartamentos a preços populares, ainda que sejam de pior qualidade, como a MRV aqui no Brasil?

    Quantas pessoas você conheceu que desistiram da alyiah? Porque não conseguem pagar suas contas?

    Para finalizar, eu sou ateu, me chame como quiser.
    Não há nada de divino, geulah – o que há é uma força muito forte contida dentro de um povo que foi muito perseguido e maltratado na Europa. Ação e reação.

    Preparar covas antes do falecimento – eu acho
    que é proibido pela Halachah.

    Enfim, eu nem li tudo o que você escreveu… Publique um livro!

    Jerusalém não está dividida, mas tem uma população não- judia que não é nada amistosa. Traduzindo: é um barril de pólvora. Conhece a piada:

    – Como ser feliz em Israel? Esqueça que os árabes em volta querem te matar!

  4. Alexandre

    Relendo o que escrevi em maio 25, 2017 at 2:20 am (horário de Israel)-

    quando eu disse a palavra DEMAGOGIA, estava me referindo aos americanos – que há anos e anos prometem transferir a embaixada para Jerusalém e nunca fazem! O que eles fazem é sim demagogia com os isralenses!

    Desculpe o mal-entendido.

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