08
jun

Até os cães na rua latem em hebraico

Sou um oleh chadash. Metade das minhas perguntas são respondidas em inglês, metade das minhas respostas são retrucadas com “lo evanti”. Talvez eu fique menos incomodado que muitos conhecidos meus, pois a cada resposta fico alguns minutos pensando como é incrível que alguém possa me responder em hebraico.

Nos meus primeiros anos de estudo na faculdade de História, aprendi que o que conhecemos como nacionalismo moderno tem alguns parâmetros mínimos comuns para sua realização: uma língua comum, um território definido e vontade coletiva de auto-determinação. Não é a toa que Theodor Herzl já se preocupava com a língua do futuro Estado Judeu antes mesmo da primeira reunião do Congresso Sionista, em 1897. Dizia Herzl que a língua obviamente seria alemão, pela afinidade do ídiche. Ídiche, porém, era a “língua dos prisioneiros” que representava nossa existência subterrânea na Diáspora, sem vigor próprio. O hebraico ao seus olhos era absolutamente impossível de ser uma língua nacional, afinal, “ninguém saberia pedir um tíquete de trem em hebraico”.

O mundo judaico era muito maior do que a realidade de Herzl e sua vida intelectual no Império Austro-Hungaro. Alguns quatro ou cinco anos após o primeiro Congresso, Herzl receberia uma carta em um hebraico altamente formal e arcaico de um certo Avigdor Grun de Plonsk. Tive o prazer de tentar ler a original, em que o senhor Avigdor pede a Herzl, a quem chama de “o Rei dos Judeus” algum auxílio – financeiro e conselhos no geral – para mandar seu filho para estudar em Viena. O rapaz é descrito como “a maçã de meus olhos” pelo pai. Se Herzl recebeu a carta, nunca a entendeu. O filho do autor achou a carta no Arquivo Central Sionista em Jerusalém, cinquenta anos depois. Nesta época o rapaz também já mudado de nome, de David Grun para David Ben-Gurion.

Porém, em cinquenta anos de kibbutz galuyot foram incontáveis as disputas, as brigas e discussões para saber qual seria a língua nacional do Estado judaico. Com uma população de imigrantes, era uma questão existencial ter uma língua comum. Infelizmente, não era como hoje que após aterrisar no aeroporto Ben-Gurion, se vai direto para sua klitá e um Ulpan intensivo. Salas de aula eram improvisadas onde era possível e o hebraico era apenas mais uma língua dentre as muitas que os judeus trouxeram para Eretz Israel.

Os jovens aprendiam a língua mais rápido, mas os mais velhos preferiam falar em polonês, russo ou seja qual fosse a língua de onde nasceram. A comunidade religiosa que já morava em Jerusalém não era a favor do uso da língua para atividades mundanas, principalmente ao ser ensinada em colégios mistos e de educação secular. A prefeitura de Tel Aviv, a primeira cidade hebraica, tinha que enviar cartas e mais cartas de resposta para tentar explicar que somente estava autorizada a responder em hebraico. Inspetores tinham que sair às ruas para consertar as placas das lojas, muitas em alemão, muitas outras em hebraico incorreto.

Graças à atitude liberal do Mandato Britânico, ativistas sionistas podiam manter sua autonomia e livremente deliberar sobre o destino de sua cultura. Imagino os debates quando descobriram o grande poeta Bialik conversando em ídiche nas ruas de Tel Aviv. Os administradores vindos de Londres podiam não ser fãs da vontade indômita dos judeus de terem seu país, mas também não devotavam nenhum esforço para limitar ações fora do mundo da política. O escritor Shalom Asch via com humor o zelo da juventude para fazer a língua se tornar natural: “Até os cachorros da rua latem em hebraico. Caso as pessoas da rua não falem, logo são lembradas pelos jovens do Batalhão da Língua Hebraica”. ”Judeu, fale Hebraico!” gritavam os jovens do “Batalhão”, dentre eles o jovem Zvi Yehuda Kook, filho do Rav Kook.

Criando algazarras e apitaços, os jovens marchavam por Tel Aviv para fazer intolerável a vida dos imigrantes que não queriam ou não conseguiam se adaptar. No clímax de seu ativismo político, entraram no Teatro Habima para impedir a execução de uma peça em ídiche. Até mesmo contra o prefeito Meir Dizengoff, talvez seu grande aliado, eles protestaram. A prefeitura pagava parte das atividades do batalhão, que ensinava hebraico em aulas coletivas nas ruas. Mas quando descobriram que cartas em árabes eram enviadas para Jaffa e que até mesmo ídiche era usado em reuniões, acusaram a prefeitura de traição.

Uma valiosa lição de minha formação foi entender que as grandes narrativas nacionais no geral escondem pequenas histórias. No Brasil, estamos acostumados a acreditar que a independência se deu no Grito do Ipiranga. Certamente eventos ainda mais importantes se deram nas reuniões em salas fechadas, e jamais saberemos por completo o que se passou.

Enquanto Eliezer Ben-Yehuda procurava lançar as bases do hebraico moderno, os alunos e professores do Teknikum (hoje em dia Technion) de Haifa e os da Universidade Hebraica de Jerusalem se degladiavam entre o hebraico e o alemão no que conhecemos como Milchemet HaSafot – a Guerra das Línguas – e o sabra que cuidava dos kibbutzim já avançava um hebraico duro, direto, misturado com palavras em árabe para conversar com seus companheiros. Outros discutiam qual era o grau de influência que a pronúncia dos sefaradim tinha que ter na língua revivida. Contra eles, alguns imigrantes de esquerda que viam no ídiche uma língua que já tinha “experiência de vida” e portanto era mais adequada e uma vasta maioria de imigrantes que tateava uma nova vida em uma nova língua.

Talvez somente vamos saber dos pequenos erros cômicos, como do engenheiro da indústria de armas que ao invés de dizer que fabricava neshakim – armas – dizia que fabricava neshikot – beijos. Eu mesmo cometeria esse erro facilmente com meu parco hebraico.

A aliyah e o fazer parte do kibbutz galuyot nos dá a oportunidade de fazer parte da história. No geral, estes grandes épicos estão registrados em livros de história: os que marcharam para a queda do Muro da Bastilha, os que lutaram no Dia D na Segunda Guerra, os que marretaram o Muro de Berlim.

Em Israel, ainda temos vivos os soldados que liberaram Jerusalém e choraram na frente do Muro! A ressurreição do hebraico como língua falada no dia-a-dia é uma empreitada coletiva que saiu da pena de alguns poucos escritores de classe média do Leste Europeu para criar as raízes de uma cultura hebraica. Alimentada pela experiência histórica de nossa dispersão, a cultura hebraica traduz a complexa história do Estado de Israel: rejeitou as línguas daqueles que nos expulsaram da Europa e se agarrou em uma língua que desde muito não se usava no dia-a-dia.

Arrisco dizer que foi um acontecimento até mesmo mais milagroso do que a independência de Israel: o nível de instrospecção coletiva e de ordem espontânea para criar, adotar, traduzir e repensar o mundo em hebraico pediu e ainda pede uma mobilização continua do povo judeu. O filósofo romeno Emil Cioran disse: “Não se habita em um país, se habita em uma língua. Este é o nosso país, nossa pátria-mãe – nenhuma outra”. O hebraico pediu para que os olim esquecessem suas pátrias-mães, pois sabia que nos dois mil anos de Galut, ainda se espreitava pelas rezas matinais, pelas letras do ídiche, do hakitia, do ladino.

Lemos na Torah que quando os judeus saíram do Egito, os cachorros não latiram. Agora que voltamos para Israel, como disse Shalom Asch nos anos 30, eles latem e em hebraico.

Bibliografia:

HELMAN, Anat. Even the Dogs in the Streets Bark in Hebrew: National Ideology and Everyday Culture in Tel Aviv.
SAPOSNIK, Arieh. Becoming Hebrew: The Creation of a Hebrew Culture in Ottoman Palestine.
SHAPIRA, Anita. Ben Gurion: Father of Modern Israel (Jewish Lives Series).

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