21
jun

Rússia, 1882, Hebron, 1929 e Jerusalém, 1967

Existe uma sutileza no ofício do historiador que não aparece nos livros, não é ensinada em matérias obrigatórias e não se fala abertamente. É o uso de uma técnica antiga, já descrita por Cícero em De Oratore e no Institutio Oratoria de Quintiliano: o uso de loci (locais, em latim), ou também conhecido como “palácio da mente”. Basicamente, imagina-se um espaço – uma sala ou uma rua – e nele se colocam memórias importantes, como se fosse uma decoração do ambiente. Ao se imaginar o lugar, o posicionamento dos objetos ajuda a memorizar eventos, dados, datas e personagens.

Em 1882, na Zona de Habitação Judaica que se localizava entre o que conhecemos hoje em dia como Rússia e Polônia, ocorreu um pogrom. O evento ficou conhecido como “Suffot baNegev” – ou a Tempestade no Sul. É interpretado como uma consequência do assassinato do Czar Alexandre II por um grupo de revolucionários, dentre eles alguns judeus. O fato de judeus terem sido parte do grupo incensou os ventos do antissemitismo e logo foi propagandeado que os judeus assassinaram o Czar. Ainda que a perda de vida tenha sido mínima ou inexistente, o mundo judaico entrou em uma profunda crise de consciência. Já havia quase um século que os judeus da Europa não se sentiam coletivamente ameaçados, pois tinham seus direitos garantidos pelos Estados onde viviam. Ainda existia discriminação, a integração à sociedade era feita por caminhos tortuosos mas dificilmente era pior do que a vida dentro das muralhas dos guetos. Mesmo na Zona de Habitação Judaica, formada para concentrar os judeus do Império Russo, reformas políticas e economicas lentamente permitiram a melhora de condições de vida.

Durante o Suffot BaNegev, multidões destruíram negócios, casas e sinagogas. Pessoas que no dia anterior estavam fazendo negócios em uma cidade vizinha voltaram para ver suas casas em chamas. A polícia nada fez e pedidos de ajuda ao Estado foram respondidos com uma nova legislação draconiana: uma cota de judeus que poderiam morar em cidades fora da área demarcada para judeus (entre três e cinco porcento, dependendo da cidade), fechamento de sinagogas, proibição de trabalhar em certas profissões. Parecia que a culpa da revolta era na verdade, das vítimas. Se comparado com o que os judeus da Europa sofreriam mais adiante, talvez pareça até apenas um pequeno distúrbio. Porém a pergunta que ficou foi “- Como evitar que isto se repita no futuro?”.

Sabemos que muitos procuraram responder tal pergunta, sendo o mais famoso dos que tentaram, um certo Theodor Herzl. O movimento sionista entendeu primeiramente que existia um povo judeu. Após alguns anos de deliberações, entendeu que este povo não podia estar em qualquer território, mas em um território judaico, que refletisse seu vasto e glorioso passado como nação. “Judeus, voltem para a Palestina!”, gritavam os antissemitas da Europa. Eles voltaram, para Eretz Israel, através da política de hityashvut – a criação de colônias judaicas cujos habitantes trabalhariam na terra e dependeriam de si e não de outros. Se na Europa aos judeus era proibido o porte de armas, aqui eles podiam montar à cavalo e patrulhar suas propriedades. A arma em si não era orgulho algum, mas a liberdade de poder ter algum controle sobre o destino já começava a ser vislumbrada.

Em Agosto de 1929, o Mufti – um cargo de autoridade islâmica criado pelo Mandato Britânico – de Jerusalém discursou na Mesquita de al-Aqsa. Dizia ele que os judeus queriam tomar o Har HaBayit e matar muçulmanos. No dia anterior ao discurso, jovens do movimento Betar fizeram uma manifestação com bandeiras para mostrar a ligação judaica com o Muro das Lamentações. A exortação do Mufti gerou resultados imediatos, um jovem judeu foi esfaqueado e a área do Kotel, vandalizada. No dia 23, três judeus de Mea Shearim foram mortos à pauladas. Em Hebron, ouviu-se que os judeus de Jerusalém estavam massacrando muçulmanos. Multidões tomaram as ruas e começaram a quebras as janelas das casas de judeus. Um bachur da Yeshivá de Hebron tentou fugir e foi esfaqueado até a morte. No dia seguinte, armados com espadas, facas e porretes, homens entraram nas residências de judeus.

Os detalhes não são necessários. Sessenta e nove vítimas foram degoladas, esfaqueadas, espancadas e outros sofrimentos inimagináveis. A polícia da cidade era fornecida pelas autoridades do Mandato Britânico. As autoridades da comunidade judaica em Jerusalém tentaram entrar em contato com o Governador do Mandato para proteger os habitantes de Hebron. Muito pouco foi feito para proteger o povo judeu durante o dia 24 de Agosto de 1929. O rabino-chefe da comunidade sefaradi foi morto ao se recusar a entregar os judeus ashkenazim.

Sobrevivente do massacre em Hebron

 

Casa destruída em Hebron

 

O Jornal “The Baltimore News” nos Estados Unidos relata o massacre ocorrido em Hebron em sua página principal

 

Aparentemente, os imigrantes recentes foram um alvo ainda maior da fúria da turba. Ao que sabemos sua resposta antes de ser morto foi: “- Não. Somos um só povo”. Os judeus que moravam em Hebron sequer eram sionistas, muitos queriam distância das ideias modernas que chegavam com os haluztim. No final, foram mortos por serem judeus, sionistas, não-sionistas, sefaradim e ashkenazim. Os que sobreviveram foram levados em um comboio para Jerusalém, acabando com séculos de vida judaica na cidade.

Porque ir tão longe para falar de Jerusalém na Guerra dos Seis Dias?

Li recentemente uma “matéria de jornal” que explica a construção da esplanada em frente ao Kotel. Segundo tal texto, os habitantes dali foram expulsos na calada da noite e suas casas foram destruídas. Fim. O palácio mental dos autores aqui é apenas uma cordinha tênue de fatos enfileirados, cuja leitura começa a partir de um certo ponto, feito de propósito para esquecer o que passa antes.

Ao tomarem a Cidade Velha do controle jornaniano, os israelenses viram o que foi feito com o bairro judaico após 1948. A sinagoga Hurva e a Yeshiva Etz Chaim foram dinamitadas de propósito. Mais de cinquenta e sete prédios que serviam de sinagogas e yeshivot foram desecrados ou demolidos sem motivo algum. Sequer os Sifrei Torah escaparam, sendo frequentemente queimados como provocação. Após saquearem as casas, permitiram uma ocupação desordenada do espaço. Quando os israelenses tomaram a área em 1967, era um espaço paupérrimo. O prefeito Teddy Kollek pagou compensação aos desalojados (algo frequentemente esquecido, inclusive pelos autores do texto do jornal), e o valor foi suficiente para que pudessem adquirir novas casas.

Soldado da Liga Árabe no meio dos destroços da Sinagoga Hurva e em sua mão se encontra um pergaminho de um Sefer Torah em maio de 1948

A demolição das casas em frente ao Kotel foi fruto de um plano ardiloso ou foi uma difícil decisão pragmática de evitar uma outra Hebron em 1929? Ceder o controle do Har HaBayit, considerando o tratamento dado pelos jordanianos aos lugares sagrados judaicos, demonstrou o que, além de um imenso pragmatismo mesmo face a possibilidade de controlar o espaço do Beit Hamikdash? Mesmo a entrada em Hebron, hoje em dia pintada como obra de radicais de direita, foi na época proposta por Yigal Allon, palmachnik, ex-general da Tzavá e primeiro-ministro incumbente. Era fundamental estar em um lugar onde houve um massacre que nos recordava da vida na Diáspora, onde dependiamos dos favores de governos estrangeiros. Ou iriamos mais uma vez simplesmente olhar espantados para nossos algozes? O próprio ataque na Guerra dos Seis dias é outro exemplo. Seria possível esperar para ver qual seria a a estratégia das divisões egípcias estacionadas no Sinai? Israel e o mundo judaico estavam dispostos a esperar para ver se a ideia de “jogar os judeus no mar” era séria ou não?

A história judaica e de Israel não é uma cordinha unidimensional. Corre-se o risco de amputar causas e efeitos de maneira a distorcer a narrativa. Atos aparentemente fáceis de explicar possuem raízes bem profundas, afetando memórias coletivas de maneiras não muito óbvias. Por seus milênios, pelo seu gigantismo, por seu renascimento após um dos períodos mais tenebrosos da história da humanidade, certamente pensar na história judaica como uma cordinha é menos do que ela merece. A História Judaica merece um palácio.

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