29
ago

O evento que definiu a vida judaica na modernidade

No dia 29 de Agosto de 1897, uma multidão de judeus se reunia na Basiléia, Suiça.

 

A ansiedade era certamente palpável no grande salão. Os delegados observavam o interior do Stadtcasino Basel, decorado com bandeiras com a Estrela de David. De acordo com as regras, todos deveriam usar trajes de gala e seguir à risca o protocolo cerimonial. Não foi somente por uma questão de elitismo ou puramente estética. Era importante para os organizadores mostrarem ao mundo que ali não estavam os judeus que povoaram por centenas de anos o imaginário popular da Europa.

Os judeus do Leste Europeu, devido ao processo de desagregação da vida comunal judaica na região da Russia e Polônia, passaram a emigrar para a Europea Ocidental e para os Estados Unidos. Eram vistos como uma multidão semi-bárbara que trazia consigo costumes diferentes e uma religião que negava o cristianismo. Tais judeus, meus antepassados, os judeus ashkenazim da Polônia, Bessarábia, Belarus e do Leste Europeu em geral. Estes homens e mulheres que carregavam consigo os traços milenares de perseguição antijudaica eram para muitos uma negação de tudo que existe de positivo: eram vistos como covardes, improdutivos e sujos. Para muitos, deveriam sumir. Para muitos outros que pensavam em salvá-los, a condição seria que abandonassem tudo que fosse judaico.

Esse “outro” era tudo que o Congresso Sionista procurou mudar. Os judeus deveriam se moldar de acordo com os Estados-Nacionais da Europa, com bandeiras, hinos, fronteiras definidas. O amor e pertencimento à um país, no século XIX, eram medidas da civilização de um povo. Socialistas, anarquistas e obviamente, os povos sob domínio colonial, eram vistos como inferiores. Os judeus eram vistos como um pouco de tudo: muitos abandonaram a religião pelo Socialismo esperando criar uma realidade melhor, outros viviam quase que separados da sociedade e os que tentavam se integrar eram vistos como menos leais que os cidadãos comuns, pois se dividiam entre o Judaísmo e os países onde moravam. Todas as soluções pareciam levar ao mesmo ciclo de violência que definiu as relações judaico-europeias desde sempre.

Theodor Herzl viu de perto este problema. Nascido em uma família assimilada em Pest, no Império Austro-Húngaro, Herzl falava alemão em casa, se via como culturalmente germânico e respirava a cultura de Goethe e Schiller. Na faculdade, viu que judeus eram rejeitados nas associações estudantis somente por terem sobrenomes judaicos. Dr. Herzl não era um judeu religioso, mas também não era completamente ignorante sobre a tradição judaica. Alguns anos após o Primeiro Congresso Sionista, Herzl discursou para uma multidão em uma sinagoga de Constantinopla. Ele escreve em seu diário que não sabia como discursar sem dar as costas para o Sefer Torah, os rolos da Torah que ficam em toda sinagoga funcional. Até que ele ouviu: “Você pode ficar de costas para a Torá, você é mais sagrado do que ela!”.

Herzl — assim como o homem em Constantinopla — certamente sabia que a Torá era sagarada. Porém, ele viu que era possível transformar a crise das comunidades judaicas da Europa para produzir algo positivo. Ele percebeu no nacionalismo europeu, uma maneira de interromper uma vida política de schnorrers — um termo ídiche para “pedinte”, ou aquele indivíduo que sempre pede algo sem a intenção de devolver ou pagar de volta. Os judeus deixariam de pedir abrigo para aqueles que os perseguiram até mesmo quando se despiram de seu judaísmo. Eles entrariam pela porta da frente da História.

O Estado dos Judeus seria uma contribuição esplendorosa para o mundo. Ao entrar no rol da sociedade de nações, os judeus se tornariam respeitáveis aos olhos de seus algozes. Seria o fim dos tempos dos judeus sob proteção de exércitos estrangeiros, sua religião seria nacional, respeitando os princípios de separação entre Sinagoga e Estado e as mais modernas ideias de uma boa sociedade seriam trazidas para o futuro país. Leis trabalhistas, jornada de oito horas, exército voluntário e profissional. O sionismo queria criar uma utopia.

Os três dias do evento foram cuidadosamente planejados por Herzl, que trabalhou incessantemente. Seu escritório, montado em uma velha loja de alfaiataria, foi redecorado e a placa da entrada retirada. Ele não poderia suportar a humilhação de organizar seu evento em meio á um espaço decadente. Os organizadores haviam planejado o evento no salão de uma cervejaria, Herzl sozinho alugou o cassino principal da cidade.

Na abertura, o rabino Karpel Lippe recitou o Shecheyanu:

Baruch Atá HaShem, E-lo-hê-nu Mêlech haolam, shehecheyánu vekiyemánu vehiguiánu lazman hazê.

Bendito és Tu, HaShem, nosso D’us, Rei do Universo que nos deu vida e nos manteve e nos fez alcançar esta época.

Proeminentes personalidades discursaram, planejaram e sonharam durante três dias. Herzl foi descrito como um descendente da Casa de David, um potencial Maschiach que iniciou a redenção do povo judeu. Ali de fato iniciou-se a corrida para a criação de Israel como conhecemos. Não é a toa que Herzl escreveu em seu diário logo após o fim do congresso:

“Na Basileia, eu fundei o Estado Judeu. Caso eu diga isto hoje, seria recebido com risadas. Em cinco ou cinquenta anos talvez, irão reconhecer meus esforços.”

Herzl não viveu para ver o Estado ser fundado. Seu trabalho incessante, as disputas ferrenhas entre os delegados do congresso e as inúmeras viagens aparentemente agudizaram uma esclerose do miocárdio que ceifou sua vida em 1904, aos 44 anos.

Hoje em dia, com o Estado fundado, as disputas continuam. O sentido histórico do sionismo é reivindicado por diversos grupos da sociedade: direita, esquerda, religiosos, seculares e mesmo aqueles que vêem no sionismo uma afronta contra o modo de vida tradicional dos judeus. Dizem que Herzl queria criar um Estado que de judaico, somente teria o nome.

Tais disputas são comuns em uma democracia. O passado é um campo de batalha na maioria das democracias modernas: a Revolução Francesa, o legado do peronismo e do varguismo e os regimes do socialismo árabe. De tempo em tempo, aparecem partidos ou indivíduos que se intitulam “herdeiros” de tais legados.

Herzl não deixou herdeiros políticos relevantes. Suas ideias para o futuro Estado deram lugar para versões de socialismo, para ideias anti-liberais de direita e de esquerda, para visões em que o Estado judaico seria binacional com os árabes da Palestina, ou mesmo fora dali: na Argentina ou em Uganda.

Porém isso não é o que importa. O que importa é que o pequeno plano de Herzl se frutificou graças aos esforços de muitas gerações que imigraram e deram a vida por Israel. Muitas vezes suas histórias foram de sofrimento e não duvido que diversos pioneiros se perguntavam o motivo de estarem ali. Durante anos o país foi pobre, a comida escassa, a guerra constante. O medo de não ver o dia seguinte era real e justificado. A utopia de Herzl ao se formar era um país duro, difícil que pouco se parecia com a Europa que tentou emular.

Hoje em dia, tudo isto parece um passado distante. Por isso, se importar com Israel para muitos é um sentimento natural, de se importar com sua família extendida. Com o futuro garantido, é fácil naturalizar questões e problemas que estiveram na pauta do movimento sionista por quase toda sua existência. Porém, creio que por ser nosso, se importar e cuidar de Israel é profundamente importante para a experiência judaica contemporânea. Ao reviver o hebraico, ao exportar cultura para a Diáspora judaica e para o mundo, ao recolocar os judeus no território onde eles criaram sua mais significativa experiência histórica: o pequeno território do Golan à Eilat é o indisputável palco central da vida judaica.

Pode até ser um país que não atenda à todas as expectativas. Mas é nosso. Quando Moshe Rabeinu quebrou as Luchot HaBrit — as Tábuas da Lei — ao se encolerizar com a visão do povo cometendo idolatria, é de se imaginar que os pedaços restantes fossem simplesmente esquecidos. Afinal, não podiam mais ser lidos, o valor original estava perdido. Porém, foram colocados juntamente com as segundas Tábuas no Aron HaBrit, a Arca da Aliança. Por qual motivo? Simples, eram nossos pedaços. Quebrados, ilegíveis e talvez inúteis. Mas nossos.

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